OOM 1: Os ouvidos não têm pálpebras
appa escreve aos 11.Oct.06 pelas 04h19

Marin Marais played by Gerard Depardieu

Todo o som é o invisível sob a forma do perfurador de envelopes. Quer se trate de corpos, quartos, apartamentos, castelos. Imaterial, ele ultrapassa todas as barreiras. O som ignora a pele, não sabe o que é um limite: ele não é nem interno, nem externo. Ilimitável, ele é ilocalizável. Não pode ser tocado: ele é incapturável. A audição não é como a visão. Aquilo que é visto pode ser parado pela parede ou pela cortina, pode ser tornado inacessível pela muralha. O que é ouvido não conhece nem pálpebras, nem paredes, nem cortinas, nem muralhas. Indelimitável, ninguém se pode proteger dele: os ouvidos não têm pálpebras.

Sons dos filme Tous les Matins du Monde (1991) de Alain Corneau baseado no delicioso livrinho de Pascal Quignard do mesmo título. Como as cabras da anedota que Hitchcock conta a Truffaut, também aqui o livro é muito mais saboroso que o filme.

Ainda sons do filme Targets (1968) de Peter Bogdanovich acerca de um jovem simpático e de boas famílias que se passa e desata a disparar sobre tudo o que se move. Uma das últimas aparições na ecrã cinemático do grande Boris Karloff. Um filme feito por tuta-e-meia e sem som directo, como os primeiros da Nouvelle Vague. Samuel Fuller colaborou no argumento, sem crédito a seu pedido.

Sons captados em Lisboa no Natal de 2005. Destaque para o chinfrim generalizado no Chiado e a grotesca têvê a metro do Metro. O ruído tem uma face e a Media Capital Outdoor TV que era do sr. Paes do Amaral — antes de ele a ter vendido, como bom negociante que é, aos castelhanos nuestros hermanos — é uma das suas visões mais terríficas. Ainda as vozes de Malcom X, Benito Mussolini e Adolf Hitler. E por último o som ambiente captado no foyer do CCB antes de um espéctaculo do palhaço Slava.

Música desde Pérotin (séc. XII) até Salvatore Sciarrino (séc. XXI), passando por Antoine Forqueray (séc. XVII) e muitos outros.

Mais detalhes no guião.

Nota: Este foi o primeiro programa. O texto é no essencial uma tradução e adaptação livre do magnífico livro La Haine de la Musique de Pascal Quignard.

Locução: Edite Sombreireiro.

Agradecimentos: João Jarego, Luís Leão, Tomás de Oliveira Marques, João Almeida, Maria Luísa Tavares & João Ludovice.


Guião do Ouvido de Maxwell

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