A libido do óxido de ferro e o museu
appa escreve aos 14.May.06 pelas 23h33

Nagra III reel to reel recorder

Capturar o som. Gosto deste verbo capturar. Ele anda por aí e deixa-se apanhar por qualquer um com um microfone e um método de gravar. Desde um velho gravador de cassetes a pilhas até ao mais sofisticado gravador de flash card. Mas, mas, há muitas maneiras de capturar. E depois de ser capturado, o que é que mora lá dentro? Tal como o rouxinol que cantava lindamente e na gaiola definha e morre, também o som precisa de asas para voar. O som é coisa orgânica, existe aqui em baixo em que a atmosfera nos oferece as ondas de pressão, no espaço exterior não há. Donde o som está intimamente ligado ao nosso habitat, e a nós humanos e outros habitantes deste planeta menor, de um igualmente menor sistema solar.

Não haverá por isso uma maior simpatia entre um modo de captura orgânico e o som? E o que é orgânico? É uma coisa que mexe, que pulsa, que é temperamental, que tem volume, que pesa. Um Nagra é orgânico. E a que propósito vem esta conversa? Bem nunca tinha tido oportunidade de trabalhar com um Nagra. Aconteceu recentemente. E é uma experiência única. A robustez, o toque, a simplicidade, a fiabilidade, os seus sete kg de peso.

Como engenheiro emociono-me com uma obra de engenharia consumada como o Nagra III, em que 2 botões chegam para fazer tudo. Por detrás da simplicidade há muitas horas de neurónios a dispararem de forma alucinante. Há muita engenharia.

Não, não vou entrar no estafado debate do analógico vs. digital. É verdade que há um calor no analógico, que o digital não tem. O analógico foi criado como um meio de produção, o digital como um meio de cópia. Da génese dos dois resulta a diferença que se reflecte no modo como o som é percebido por cada um. No caso dos magnetofones há um encanto que não é só sónico, há o visual: as bobines a rodar. No caso do Nagra acresce que é um belo objecto. Há o táctil, o toque nos botões, a colocação da fita, o peso, a textura dos materiais. E há finalmente o sónico. Um Nagra afinado soa divinal.

Tenho como projecto de um dia produzir um programa todo feito com analógico. Excepto a parte final que terá ser em formato MPEG-1 audio layer 2, o standard do broadcast digital. Para já razões múltiplas impedem-me de levar a cabo este projecto. Claro que captar o som com um Nagra é coisa arriscada e pouco prática, é pequeno, mas muito maior que um gravador minidisc, o aspecto de gravação stealth perde-se: qualquer um vê as bobines a rodar. E hoje a insegurança nas cidades obstam a que se possa passear descansadamente este valioso artefacto, correndo o risco de ser assaltado. Hélas, é triste, mas é a realidade. A ideologia do dinheiro fácil trabalhada durante décadas pela têvê acabou por dar, dar e furar. Basta um esticão e são umas dezenas ou centenas sem esforço.

Mas há sempre a possibilidade de fazer uso do conveniente dos meios digitais para a captação, sobretudo a sua miniaturização, e usar o analógico para produzir um master final, que depois será digitalizado. Há uma relação radicalmente diferente entre o autor e o seu trabalho num ficheiro WAV, ou numa fita com uma caixa. Sentimentalismos deslocados e patéticos, dirão os mais apolíneos de entre vós. Será em parte, mas o gozo de fazer uma coisa vem sobretudo do preço que se paga por ela muito mais do que da coisa em si. Preço em sentido lato.

E tudo isto porque há um Museu da Rádio, onde está depositado um acervo fabuloso, infelizmente sem manutenção. Este museu foi extinto recentemente, por decisão da administração da RTP. Surgirá no seu lugar um museu da rádio e televisão, com uma área diminuta, em que o espaço agora disponível no (defunto) museu será sensivelmente dividido por um terço. Se no actual edifício há já muita coisa em reserva por falta de espaço, o "novo" será um reles escaparate sem dignidade. Verdade que o actual espaço está longe de ser bom, mas andar de cavalo — ainda que seja uma pileca — é melhor que andar de burro, e ir da Madragoa para Chelas é exactamente isso. Quantos turistas estarão dispostos a sairem no metro em Chelas, local grotesco de Lisboa, e a andarem 200 metros até à RTP? Enquanto que na Madragoa, local pitoresco da cidade há muitos.

Se houvesse vontade o actual edifício na Rua do Quelhas poderia ser transformado e criadas as condições para ser um museu moderno e digno para o valioso espólio que possuí. Mas não há, o contável fala mais alto, e olhos gulo$os, fazem lamber os beiços a argentários do imobiliário. Que belo condomínio fechado se faz ali. É a miopia típica dos decisores cá da terra. Aquele museu bem trabalhado ao nível das instalações e da sua divulgação seria rentável, tanto quanto um museu pode ser. A rádio é coisa antiga e tem uma história nobre enquanto a têvê, doentia perversão do cinema, é uma coisa reles. Que coisa convida mais à letargia mental e física que assistir à têvê?

Ondes estão os Lee de Forest, os Marconi, os Hertz, os Maxwell , os Edison da têvê. Não há! No hard feelings, it's strictly business. Por isso é um erro crasso, próprio de argentários ignaros embrulhar tudo no mesmo papel. Mas isto é apenas mais um passo na degradação da rádio pública. As acções falam mais, muito mais, que as palavras, se fosse preciso provar o quanto a rádio é o parente indigente da actual RTP, basta apontar o browser para www.rdp.pt, e sermos brindados com a página da têvê com os destaques dos concursos mentecaptos que esta gosta de enfiar pelas goelas abaixo dos cuspidores de euros, oops, quero dizer dos telespectadores.

Aliás, bastaria deixar de pagar chorudamente a uma das vedetas de meia-tigela meio-idiota que abrilhanta a programação televisiva para manter o museu. Mas prefere-se torrar o $ em cachets milionários para inchados leitores de teleponto que nos presenteiam com as "novas" da actualidade pela hora da janta, ou em hiper-obesos e boçais apresentadores de variedades ultra-light com bifidus e outras úteis bactérias ao tracto instestinal à mistura.

Urgo por isso a que enquanto existe, disponha de uma manhão ou tarde sua para ir visitar o Museu da Rádio na Rua do Quelhas, próximo ao ISEG e ao quartel dos Sapadores Bombeiros. Oficialmente está fechado, mas pode ser que a Drª. Alexandra Fraga, directora do defunto museu, esteja pelos ajustes e simpaticamente anua ao seu pedido. O telefone é: 21 395 07 62.

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Anonymous escreve às 21h28 de 01.Nov.09

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