
Há um slogan que se ouve de vez em quando na France Culture que diz em bom francês:
A força da rádio é que ela não tem imagens.
Numa civilização em que o olho subjuga os outros sentidos, onde o seu estímulo é permanente, desde os mupis na rua até ao ecrã da têvê, que lugar à rádio, que não tem imagens? Estará condenada ao fracasso? Se a rádio não pode ser uma cash cow como a têvê, se a ditadura das playlists determina o seu esvair de conteúdo, reduzindo-a a um mero apêndice auditivo da besta televisiva, será que a rádio não está condenada?
Não. Mil vezes não. A rádio, ao contrário da têvê que nunca será mais que uma perversão do cinema, mais ou menos estupidificante, e que convida à anestesia mental, a rádio no seu melhor é algo que entra em nós através de um sentido atávico como o ouvir. O olho raciociona, o ouvido intuí. Quando a rádio não se contenta em ser um robot, que outrora disparava baterias de gravadores de bobines, e hoje dispara ficheiros MPEG audio, quando a rádio se encontra com ela própria é dos meios de comunicação o mais perturbador e encantatório.
A rádio surgiu como um meio autónomo fruto do trabalho de alguma das melhores mentes que este planeta produziu, cumulativamente ela foi ganhando forma. Recentemente a Internet deu uma injecção de adrenalina bem no coração da rádio, como escrevo no manifesto do programa:
Curiosamente, ou talvez não, tal como com os livros, que os proverbiais profetas da desgraça previram como rapidamente extintos com a chegada da Internet, e na realidade sites como a Amazon.com ajudam a divulgar de uma forma como talvez só na Renascença com a invenção da Imprensa se terá feito. Também a rádio tem na Internet uma oportunidade para ser diferente. Para se demarcar do ruído generalizado que invade a nossa vida. A Internet e a rádio podem ajudar a melhorar significativamente a relação sinal/ruído da (des)informação e entretenimento que diariamente agride rudemente os nossos sentidos.
A força da rádio está precisamente no facto de não ter imagens. Tal como a literatura, a rádio convida o ouvinte a buscar nas suas experiências o que pode servir para reconstituir com minucioso detalhe uma imagem sugerida. E é neste verbo sugerir que está toda a questão. A têvê dita, a rádio sugere. É ao estimular a imaginação do ouvinte, ao re-evocar experiências que a rádio se afirma como algo de enriquecedor por oposição ao empobrecimento que a têvê promove ao emascular a mente do espectador da sua capacidade criativa.
Sim, quem já leu o que por aqui escrebuncho, já percebeu é por demais evidente: não gosto de têvê. So what? O que é que tenho a ver com isso? Quem te perguntou? Vai pregar para outra freguesia! Têm razão. Estarei a perigosamente resvalar para a pose do romântico. Para o caractér confessional? Não creio, disse o sábio Poincaré que sempre que nos aproximamos de uma coisa, há preconceitos. Mas os únicos que são perigosos são aqueles dos quais não estamos cientes. Tampouco quero fazer um tratado anti-têvê. Tenho mais que fazer. Gosto muito mais de dizer Sim do que Não. A têvê esvaziar-se-á do seu ar, ou como a rã da história rebentará de tanto ter inchado, e assumirá a condição de bugiganga curiosa que sempre foi e que nunca deixará de ser, independentemente dos ares de importância que assume aqui e agora. Não me ocorre uma única ideia original do ponto de vista técnico que tenha saído da têvê. Só se for o teleponto, e mesmo assim...Tudo foi roubado ao Cinema e à rádio.
É por isso que me "encanta" o discurso de certos apóstolos do progresso quando apontam como o grande desígnio da rádio coisas como a Visual Radio que querem transformar a rádio numa têvê indigente. Esse é o caminho seguro para cometer suicídio. A rádio só triunfará quando se encontrar com a sua história e com aquilo que é a fibra do seu ser, uma experiência sem imagens, directa ao ouvido, sem mas, sem talvez, sem complexos.
No início também me senti tentado pela serpente da imagem, que me dizia, tsssss, tssss, vem aqui à minha árvore e morde uma maçã, não têm bicho, fazem parte de um pomar subsidiado pela Política Agrícola Comum, não sabem a nada, e evitam por isso teres que te pronunciar. Comes e calas. Do outro lado do Jardim estava a árvore da rádio Rádio, já com líquenes na casca, com pequenas maçãs não calibradas e não reluzentes, com bichos a sairem: com vida. Acabei por escolher o sabor da maçã da rádio Rádio, ao aspecto enganador da rádio têvê, que é só uma capa que nem a casca atravessa. Por isso o primeiro programa que afixei no site foi acompanhado de imagens que comentavam os sons. Para além do ciclópico trabalho envolvido, pareceu-me que estava a esvaziar o programa do seu objectivo, que é de com o dedo bater no ombro do ouvinte e dizer: pssst, estou aqui, ouve-me. Ao ouvires-me vais ver que há coisas "estranhas" que passam pela tua cabeça. Há muitas portas que ficam entre-abertas. Tens coragem de abrires completamente alguma e entrares lá dentro? Quem sabe que insólitos locais visitarás e perturbantes encontros terás. Atreves-te?
Atrevo-me! Sim atrevo-me, e digo mesmo mais ainda:
A força da rádio é que ela não tem imagens.
Elas estão na minha cabeça, na sua, na do seu vizinho, daquele tipo na janela em frente que fuma gozando a pouca brisa fresca que corre da rua, da menina curvílinea do andar de baixo que dorme na varanda nos dias de calor, na cabeça do pivot de telenotícias do canal que costuma ver. Elas estão em nós, precisamos só de um catalisador para que elas surjam em catadupa. O seu cinema pessoalíssimo e privado num crânio perto de si. Desligue o telemóvel. A sessão vai começar. Ligue o rádio!
